«Ultimamente tenho sido industriado num conceito novo sobre a vida que é também uma filosofia de vida: ser "leve". Ser "leve" é o contrário de ser "pesado", é, parece, a capacidade de levar as coisas sempre de uma forma ligeira, de não se preocupar demasiadamente com nada nem dar demasiada importância a coisa alguma. Aconteça o que acontecer, façam o que fizerem, as pessoas "leves" levam tudo na despreocupada: nada deve ser suficientemente grave ou importante para que deixem de rir e de sorrir todo o tempo e em todas as circunstâncias. Trata-se de um conceito moderno e urbano, que a mim me deixa um pouco baralhado, até porque nos últimos anos tenho aprendido a preferir cada vez mais a chuva no campo do que os dias cinzentos na cidade. É verdade que os portugueses sorriem pouco e que sorrir faz bem à saúde e torna as pessoas mais bonitas. Mas lembro-me de a minha mãe dizer que os que vivem eternamente felizes e despreocupados, sempre a rir ou a sorrir, ou são parvos ou são inconscientes. Sim, porque é difícil distinguir onde acabam as virtudes de ser "leve" e começa a estupidez de ser leviano. A fronteira não é clara e há-de ser estreita.»
__________
Miguel Sousa Tavares no Expresso.
quinta-feira, 19 de março de 2009
segunda-feira, 16 de março de 2009
Palavras dos outros...
«Todos os grandes líderes precisam de imbecis. (…) Riem das piadas do dono, ladram aos seus inimigos, hesitam ao primeiro baque e vergam na esquina da contrariedade. Sabem de cor o que pensa o chefe, os timbres do seu humor e as modulações da sua voz. Como o cão de Pavlov salivam perante a campainha da sua presença. Dão muito jeito é certo, mas valem pouco no mercado transaccional.»
Claúdia Cardoso, in acores.rtp.pt.
«Estamos a perder terreno para o cinzentismo e a opinião condicionada.
Enquanto o cinzentismo é a arte de não se querer mostrar que se é preto ou branco com o objectivo de se ficar bem com Deus e o Diabo, sabe-se lá o dia de amanhã…, a opinião condicionada é a arte de estar bem com quem está. Uma posição cómoda que permite dizer que se está sempre a ganhar e que nunca se sofreu derrotas.
São assim as atitudes dos cobardes. Daqueles que não têm opinião própria e que, pensando serem “opinion makers”, não passam de papagaios manipulados ao serviço da anti-democracia. (…) Seria bom que houvesse mais parcialidade intelectualmente independente. Ter gente que pensasse pela sua própria cabeça sem ter medo do seu próprio pensamento.»
Paulo Ribeiro, in In Concreto.
Claúdia Cardoso, in acores.rtp.pt.
«Estamos a perder terreno para o cinzentismo e a opinião condicionada.
Enquanto o cinzentismo é a arte de não se querer mostrar que se é preto ou branco com o objectivo de se ficar bem com Deus e o Diabo, sabe-se lá o dia de amanhã…, a opinião condicionada é a arte de estar bem com quem está. Uma posição cómoda que permite dizer que se está sempre a ganhar e que nunca se sofreu derrotas.
São assim as atitudes dos cobardes. Daqueles que não têm opinião própria e que, pensando serem “opinion makers”, não passam de papagaios manipulados ao serviço da anti-democracia. (…) Seria bom que houvesse mais parcialidade intelectualmente independente. Ter gente que pensasse pela sua própria cabeça sem ter medo do seu próprio pensamento.»
Paulo Ribeiro, in In Concreto.
Cabeças pensantes
A Opinião na Terceira - aquela que se lê na Imprensa - continua profundamente marcada pelo partidarismo. São rarissímas as excepções. O que, por um lado, inquina qualquer tentativa de pensamento imparcial da realidade circundante e, pelo outro, afasta quem procura recolher análises independentes para perceber o mundo que o rodeia. se alguém se der ao trabalho de analisar a Opinião escrita na Imprensa da ilha nos últimos anos, perceberá facilmente que os "opinion-makers" pouco ou nada mudaram. Os mesmos rostos, as mesmas ideias de base; no fundo, mais do mesmo. O Pensamento concreto, permanente e lúcido não existe. A excepção têm sido os blogues. O que reduz - e muito - o auditório. Mantendo-se, por isso, o deserto de inovação, contraditório e reflexão desta ilha.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
«O regime que morreu três vezes»
O regime morreu. A III República portuguesa está morta. Ainda ninguém levantou o corpo, porque as certidões de óbito - em política - demoram a chegar. E, neste caso, estamos a falar de três certidões, ou seja, vivemos num regime que morreu três vezes.
A primeira morte é económica. O modelo socialista/social-democrata/democrata-cristão, centrado na caridade do Estado e na subalternização do indivíduo, está falido, e brinda-nos com recessões de quatro em quatro anos. Basta ler "O Dever da Verdade" (Dom Quixote), de Medina Carreira e Ricardo Costa, para percebermos que o nosso Estado é, na verdade, a nossa forca. Através das prestações sociais e das despesas com pessoal, o Estado consome aquilo que a sociedade produz. Estas despesas, alimentadas pela teatralidade dos 'direitos adquiridos', estão a afundar Portugal. Eu sei que esta verdade é um sapo ideológico que a maioria dos portugueses recusa engolir. Mas, mais cedo ou mais tarde, o país vai perceber que os 'direitos adquiridos' constituem um terço dos pregos do caixão da III República.
A segunda morte é institucional. Como já aqui escrevi várias vezes, Portugal não tem um regime político com freios e contrapesos. O partido da maioria, seja ele qual for, controla todas as instituições do regime; vivemos numa espécie de 'ditadura conjuntural' do partido da maioria. Por outro lado, Portugal é um Estado de direito falhado: a nossa Justiça é um embaraço confrangedor. A geração que está no poder construiu a democracia. Cabe à minha geração edificar o Estado de direito.
A terceira morte é partidária. O nosso sistema partidário tem a vitalidade de um zombie, pois não responde às necessidades da sociedade. Porquê? Ora, porque os partidos portugueses representam os interesses do Estado e não os interesses da sociedade. Portugal precisa de reformas que emagreçam o Estado, mas os partidos são os primeiros a recusar essas reformas. É natural: o emagrecimento do Estado significaria o fim de milhares e milhares de empregos para os boys.
A necessária dieta estatal passaria, por exemplo, pela reforma do mapa autárquico. A actual arquitectura do poder local assenta em pilares arcaicos. Em 2009, é simplesmente ridículo vermos o país dividido em 4251 freguesias e 308 municípios. Como é que um país tão pequeno está esquartejado desta forma? Esta situação chega a ser caricata, mas os partidos nunca executarão mudanças no mapa autárquico. É fácil perceber porquê: com menos câmaras e freguesias, as matilhas de caciques seriam obrigadas a sair do quentinho partidário e a procurar trabalho no frio da vida real. Enfim, a III República está bloqueada. Os actores que deveriam ser as alavancas legítimas das reformas - os partidos - são os primeiros a dizer 'não' às ditas reformas.
Para esconder as três mortes do regime, os partidos inventaram um mecanismo de defesa: o folclore fracturante. A actual conversa sobre o casamento gay é só mais uma forma de adiar a chegada do médico legista da III República, o regime que morreu três vezes.
Henrique Raposo
______________
Com a devida vénia ao autor, o texto acima reproduzido foi retirado daqui.
A primeira morte é económica. O modelo socialista/social-democrata/democrata-cristão, centrado na caridade do Estado e na subalternização do indivíduo, está falido, e brinda-nos com recessões de quatro em quatro anos. Basta ler "O Dever da Verdade" (Dom Quixote), de Medina Carreira e Ricardo Costa, para percebermos que o nosso Estado é, na verdade, a nossa forca. Através das prestações sociais e das despesas com pessoal, o Estado consome aquilo que a sociedade produz. Estas despesas, alimentadas pela teatralidade dos 'direitos adquiridos', estão a afundar Portugal. Eu sei que esta verdade é um sapo ideológico que a maioria dos portugueses recusa engolir. Mas, mais cedo ou mais tarde, o país vai perceber que os 'direitos adquiridos' constituem um terço dos pregos do caixão da III República.
A segunda morte é institucional. Como já aqui escrevi várias vezes, Portugal não tem um regime político com freios e contrapesos. O partido da maioria, seja ele qual for, controla todas as instituições do regime; vivemos numa espécie de 'ditadura conjuntural' do partido da maioria. Por outro lado, Portugal é um Estado de direito falhado: a nossa Justiça é um embaraço confrangedor. A geração que está no poder construiu a democracia. Cabe à minha geração edificar o Estado de direito.
A terceira morte é partidária. O nosso sistema partidário tem a vitalidade de um zombie, pois não responde às necessidades da sociedade. Porquê? Ora, porque os partidos portugueses representam os interesses do Estado e não os interesses da sociedade. Portugal precisa de reformas que emagreçam o Estado, mas os partidos são os primeiros a recusar essas reformas. É natural: o emagrecimento do Estado significaria o fim de milhares e milhares de empregos para os boys.
A necessária dieta estatal passaria, por exemplo, pela reforma do mapa autárquico. A actual arquitectura do poder local assenta em pilares arcaicos. Em 2009, é simplesmente ridículo vermos o país dividido em 4251 freguesias e 308 municípios. Como é que um país tão pequeno está esquartejado desta forma? Esta situação chega a ser caricata, mas os partidos nunca executarão mudanças no mapa autárquico. É fácil perceber porquê: com menos câmaras e freguesias, as matilhas de caciques seriam obrigadas a sair do quentinho partidário e a procurar trabalho no frio da vida real. Enfim, a III República está bloqueada. Os actores que deveriam ser as alavancas legítimas das reformas - os partidos - são os primeiros a dizer 'não' às ditas reformas.
Para esconder as três mortes do regime, os partidos inventaram um mecanismo de defesa: o folclore fracturante. A actual conversa sobre o casamento gay é só mais uma forma de adiar a chegada do médico legista da III República, o regime que morreu três vezes.
Henrique Raposo
______________
Com a devida vénia ao autor, o texto acima reproduzido foi retirado daqui.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
domingo, 23 de novembro de 2008
Subscrever:
Mensagens (Atom)